No projeto de cruzamento disciplinar CORPO, com criação de Ana Luena & José Miguel Soares e Nuno Nolasco, e texto original de Filipa Leal, explora-se questões identitárias da relação com o corpo enquanto outro. Mas o corpo não é tão só corpo, ele transforma-se com o progresso da cultura, da ciência, da tecnologia e da inteligência artificial. Este projeto de cruzamento disciplinar de caráter experimental assenta na visão do corpo humano não apenas como organismo que precisa de se alimentar, que sobrevive ou morre, mas como coisa que está no mundo e por isso a necessidade de o entender. Parte-se da ideia de que existir e estar vivo é uma percepção composta por milhares de sensações simultâneas e que o nosso mundo não é um único e o nosso corpo também não é apenas um, é múltiplo.
O momento de investigação e pesquisa em torno de ensaios e referências sobre o corpo, aconteceu em Évora, na residência de escrita e dramaturgia, em que a autora Filipa Leal escreveu o texto e orientou uma masterclass, e em sessões de exploração da cena, em que se juntou a Mariana Ramos Correia, que assume a criação musical e interpretação.
Na residência no Espaço do Tempo, de 12 a 23 junho, criou-se o espetáculo, cujo resultado foi partilhado num ENSAIO ABERTO. A performance resultante desta residência de criação é um objeto artístico cujo formato é desenhado para circular, e ser apresentado em blackbox ou adaptado a espaços alternativos numa dinâmica site-specific.
ATLAS DO CORPO E DA IMAGINAÇÃO
“Antes ainda das necessidades primárias (alimentação, abrigo, etc.) surge a necessidade do piso zero: ter um corpo que se reconhece; em volta, para o mundo e depois para si próprio, e dizer, calmamente: eu estou aqui, pelo menos tenho um corpo”, escreve Gonçalo M. Tavares no livro que nasceu da sua tese de doutoramento. Nesta obra, “Atlas do corpo e da imaginação” (ed. Relógio d’Água, 2019), todas as imagens são de “Os Espacialistas”. Um Atlas, portanto, que é, em si mesmo, a viagem. Algumas paragens fundamentais são, neste caso: corpo e identidade (com a referência a Oliver Sacks e ao diagnóstico de “perda da propriocepção” – “é como se o corpo cegasse”); corpo e dor (do ‘corpo como bem último’ à ‘propriedade dos prazeres e das dores’); ou a relação do corpo com a linguagem (‘leitura e criação’; ‘prazer de texto-prazer de corpo’) e com a poesia (‘pulmões e poesia’; ‘respiração/poesia’).
SOBRE O TEXTO CÉNICO
A Lentidão do Mundo. Três corpos, três vozes, três tempos. A mulher que limpa calmamente a piscina, ou a mulher deitada, a apanhar laranjas. O atleta, ou nadador, o rapaz que vive da velocidade. O homem sentado, ou o pai envelhecido, que nunca se viu ao espelho.
Três personagens cujos corpos contêm vários corpos, num jogo de identidades que se alteram na relação com o outro, na relação com a própria vida a avançar mais ou menos intensamente, mais ou menos dolorosamente, mais ou menos lentamente.
“Possuo a lentidão do mundo. (…) Não posso deixar de sorrir ao pensar no que sei./ As folhas e as pétalas esperam-me. Estou pronta”, escreveu Sylvia Plath no poema a três vozes “Três Mulheres”. No texto de Plath (poema radiofónico emitido na BBC3 em 1962, antes da publicação do livro), as três personagens são três variações da mesma mulher. No texto de Filipa Leal, as três personagens relacionam-se, de forma distinta, com os seus próprios corpos, e com os seus próprios mundos. Ou, afinal, talvez estas personagens, estes corpos, sejam apenas três variações do mesmo mundo.
Eu não sei viver sem o meu corpo. Ninguém sabe, ninguém pode, claro, mas o que tento dizer é que eu vivo do meu corpo. Sim, como toda a gente, mas há gente que pode parar de trabalhar o corpo, de trabalhar com o corpo. Nós não. Nós vivemos na protecção ambiciosa do corpo. Nós vivemos para recuar nas bebedeiras, para dormir cedo, para treinar, para ganhar.
Naquele dia, a vida dele parecia uma competição com ninguém. Talvez a vida de todos seja apenas isso. É sempre contra nós que estamos, se competimos com a velocidade do mundo, se competimos pela nossa velocidade no mundo. Se nos cronometramos nas paixões, nas desilusões.
Fiquei a pensar o que faria a mãe dele no meu lugar. O que faria a minha mãe no meu lugar. Nem me ocorreu pensar no meu pai, no que faria o meu pai no meu lugar. Pior do que isso, não me ocorreu pensar o que faria eu mesmo no meu lugar. O que deveria fazer eu, se fosse o pai que devia ser, que devia ter sido. Pai de corpo presente e não pai de corpo ausente.
NOTAS SOBRE A ENCENAÇÃO
de Nuno Nolasco
Investigar ou pensar o corpo em 2024. O corpo como matéria anatómica ou como centro emotivo e intelectual do ser? O corpo na física é chamado muitas vezes de objeto. Isto inclui determinar a posição e orientação no espaço, tal como as suas mudanças, resultado pela interação de forças. Uma laranja pode ser só uma laranja ou um aglomerado de partículas. Mas uma laranja pode ser também o sabor e cheiro da casa da nossa avó, ou a cor daquela aurora para a qual acordámos juntos. Mas se na relação sujeito-objeto, o sujeito estuda o objeto, não é também o sujeito sempre objeto de estudo?
Em CORPO procuramos a relação entre o nosso corpo, o corpo do outro ou até o “não corpo”. Esta pesquisa é feita através do diálogo entre dois planos – o real e a ficção. No real, o aqui e agora – dois corpos de dois performers que atuam sobre a violência, a beleza, a proporção, a harmonia, a inteligência, a prótese, o plástico-cirúrgico, a dor, a lesão, o tecnológico. Na ficção, o texto escrito por Filipa Leal, três vozes, três corpos, três tempos, talvez três variações do mesmo mundo. Estes dois planos dialogam num universo “atlético” de uma piscina rodeada de laranjeiras frondosas, em que a água pode ser de um azul Yves Klein.
Se em 2024 somos bombardeados com a obsessão pela cultura do corpo atlético, saudável e ativo, em CORPO sabemos que o virtuosismo ou endeusamento de um atleta pode ser o pranto ou grito de ajuda dele próprio. Até porque, como bem sabemos, na cultura popular, o nosso corpo tem dias, ou os nossos olhos enganam. Como escreve Filipa Leal no texto para o espetáculo: “SEGUNDA VOZ – Ninguém devia amar um atleta. É demasiado perigoso amar alguém que destrói o próprio corpo em nome do sucesso do corpo, em nome da vitalidade do corpo.”
FICHA ARTÍSTICA PERFORMANCE CORPO
Criação ANA LUENA & JOSÉ MIGUEL SOARES
Encenação, cocriação e interpretação NUNO NOLASCO
Texto original FILIPA LEAL
Música e interpretação MARIANA RAMOS CORREIA
Interpretação voz off CARLOS PAIVA, DIOGO BACH, ERICA RODRIGUES
Espaço cénico e figurinos ANA LUENA
Fotografia JOSÉ MIGUEL SOARES
Assistente de produção executiva e comunicação SANDRA TEIXEIRA
Apoio aos ensaios BEATRIZ GONÇALVES (estágio IEFP)
Costureira SUSANA DE OLIVEIRA – ATELIER CHÁ DE AGULHAS
Apoio técnico som PEDRO MOREIRA
Design gráfico JOANA AREAL
Residência de coprodução O ESPAÇO DO TEMPO
Produção MALVADA ASSOCIAÇÃO ARTÍSTICA
Agradecimentos LUÍS FERNANDES PISCINAS WELLNESS & SPA
A Malvada Associação Artística é uma estrutura financiada pela REPÚBLICA PORTUGUESA – CULTURA / DIREÇÃO-GERAL DAS ARTES com o apoio do MUNICÍPIO DE ÉVORA
