Imagina que por alguma razão as plantas começavam a diminuir a produção de oxigénio. Entrávamos num estado de apneia, perdíamos a lucidez depois era o fim, o nosso fim.
Plantar uma árvore sem saber o que virá a seguir, quem virá a seguir. Um gesto que se perpetua no tempo. Que se estende para além de ti, do teu tempo e da tua existência. Que continua. Sem ti.
O espetáculo APNEIA, uma criação de Ana Luena & José Miguel Soares, com texto e encenação de Ana Luena, integra o projeto de cruzamento disciplinar de religação à natureza PLANTA, ao longo do qual também se apresenta a ESCRITA EPISTOLAR e a exposição ENTRE, interligados num processo de inteligência distribuída similar ao das plantas.
A dramaturgia parte da ideia de jardim como laboratório de experimentação de relações, um espaço delimitado, de conexão com a natureza e escuta do outro. Na cena aprofunda-se o caráter corpóreo da noção japonesa de MA, privilegiando a percepção e a visão relacional. É este espaço de coexistência e alteridade que se explora. A cena apresenta-se como um ensaio, no duplo sentido de criação e repetição. Três personas ocupam este espaço vazio pleno de expectativas. No caminho esgotam até à exaustão todas as possibilidades de uma narrativa que se vai revelando ao longo do espetáculo. A história de cada um emerge de um lugar difuso, por vezes obscuro, desconhecido como a vida que existe debaixo das plantas dos nossos pés. Na escuridão da terra, as raízes das plantas. Onde ficam as nossas raízes? Esse lugar estranho que em nós habita.
Na cena, que é também o lugar da experiência, ensaia-se uma vontade de proximidade com as plantas no sentido metafísico e filosófico. Ainda há tanto por desvendar sobre as plantas, sobre a vida, sobre cada um de nós, sobre o outro.
O texto e a encenação refletem também o processo de criação deste projeto de religação à natureza que inclui uma forte componente de investigação e reflexão. As plantas possuem uma arquitetura modular, cooperativa, distribuída e sem centros de comandos. É da sua imobilidade e arquitetura que resulta a sua capacidade de adaptação e transformação.
Esta pesquisa é também a procura de nós próprios enquanto seres humanos. Na aceleração do mundo contemporâneo e global, impõe-se a necessidade de proximidade com o ser natural que nós somos. Que futuro para a humanidade sem as plantas, sem a respiração. Um estado de apneia permanente? Uma alucinação?
Um processo de extinção começou há muito tempo e decorre a alta velocidade. Podemos desacelerar um pouco, ensaiar a imobilidade, a suspensão voluntária ou involuntária da respiração. Mas os seres humanos só conseguem viver em apneia durante alguns minutos mantendo a lucidez.
A alucinação versus o cotidiano ou a alucinação do cotidiano?
FICHA ARTÍSTICA
Criação ANA LUENA & JOSÉ MIGUEL SOARES Texto, encenação, cenografia e figurinos ANA LUENA Interpretação HELENA BARONET, NUNO NOLASCO, RAFAEL FERREIRA Música e interpretação ao vivo ZÉ PEPS Desenho de luz PEDRO CORREIA Assistência de produção BEATRIZ OURIQUE Design gráfico JOANA AREAL
Produção MALVADA ASSOCIAÇÃO ARTÍSTICA Coprodução MUNICÍPIO DE ÉVORA, TEATRO MUNICIPAL DE BRAGANÇA, TEATRO MUNICIPAL DE VILA REAL Residência de coprodução O ESPAÇO DO TEMPO Apoio e acolhimento A BRUXA TEATRO Apoio JUNTA DE FREGUESIA DOS CANAVIAIS Mecenato GAMA UNO Protocolos UNIVERSIDADE DE ÉVORA, ASSOCIAÇÃO ACADÉMICA DA UNIVERSIDADE DE ÉVORA, ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO DISTRITO DE ÉVORA, ASSOCIAÇÃO DE SOLIDARIEDADE SOCIAL DOS PROFESSORES, HOSPITAL ESPÍRITO SANTO DE ÉVORA. SINDICATO DEMOCRÁTICO DOS PROFESSORES DO SUL Cofinanciado por ALENTEJO 2020, PORTUGAL 2020, FUNDO SOCIAL EUROPEU, UNIÃO EUROPEIA, COMPETE, IEFP
Planta tem o apoio da REPÚBLICA PORTUGUESA – CULTURA / DIREÇÃO-GERAL DAS ARTES
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