residências de criação e ensaios . REVELA-ME

As residências de criação e ensaios iniciaram-se em novembro de 2020, com a Residência Zero, durante a qual realizamos uma segunda visita ao Antigo Hospital Psiquiátrico e sessões de improvisação e fotografia na Antiga Escola Primária dos Canaviais. O material resultante da visita e das sessões de estúdio serviram para a construção da narrativa performativa que cruza a fotografia, a escrita e o teatro, num projeto de cruzamento disciplinar. 

Estou parado em frente a um portão fechado a cadeado. Em frente uma longa rua de acesso a um edifício ao fundo. O portão abre-se. Percorro aquele caminho acompanhada pelas árvores, entre luz e sombra. Entro naquele edifício no meio de um campo afastado da cidade. O seu interior está a ser ocupado por arquivo morto que cresce. Penso na inutilidade do mesmo. À esquerda espreito a sala de visitas repleta de sacos de plástico azuis, enormes. Lá dentro arquivos com dados de pessoas que já morreram ou que ainda estão vivas. Agora pertencem todas a este espaço abandonado. Subo a escada até ao primeiro andar. Luz. As janelas altas apenas permitem ver o céu. Não me consigo orientar. Como se fosse necessário estar perdido entre janelas altas, inalcançáveis, trancadas. Que não se podem abrir nem saltar. Através das janelas vejo apenas o céu azul. No fundo do corredor está uma porta aberta. Aproximo-me. Em cima de duas camas estão pousadas duas cadeiras, junto a duas janelas. Imagino dois corpos. Duas pessoas sentadas naquelas cadeira. O que vêem elas? Do que falam elas?

Noutro momento, em janeiro de 2021, os atores Inês Pereira e Nuno Nolasco percorreram a Instalação ‘Fora de Campo’, as imagens já em pleno estado de degradação foram inspiração para iniciar uma nova fase da criação do espetáculo. Estas residências decorrerem em diferentes momentos nos Canaviais e na sala dos Antigos Celeiros da EPAC, proporcionando a disponibilidade necessária a um processo de experimentação durante os dias de residência, por outro lado, cria objetivos a curto prazo e abre espaço temporal para a maturação que a distância e o tempo proporcionam. A periferia pode ser esse lugar quando a escolhemos como centro.

O espetáculo envolve a criação de um texto original aliado a um dispositivo de encenação, o vazio e o abandono surgem como representações da periferia e do que pode ser periférico. O que é suposto ficar nos bastidores, o que é pertença do processo, o que é parte da realidade toma o lugar da cena. As improvisações que deram início à construção do espetáculo e à escrita do texto cénico partiram de linhas orientadoras sugeridas pela encenadora, das suas notas sobre as visitas e da pesquisa realizada, assim como da escrita de textos que não foram rebuscados para o espetáculo mas que serviram de princípio de criação da cena.

Fotografias de José Miguel Soares. Residência de Criação e Ensaios nos Antigos Celeiros da EPAC em Évora

  • 4 a 8 novembro 2020, Antiga Escola Primária dos Canaviais, Évora
  • 26 a 30 janeiro 2021, Antigos Celeiros EPAC, Évora
  • 15 a 21 janeiro 2021, Antigos Celeiros EPAC, Évora
  • 20 março a 2 Abril 2021, Antigos Celeiros EPAC, Évora
  • 17 a 20 abril, 2021, Antigos Celeiros EPAC, Évora
notas para a encenação: O centro e a periferia  na relação com o outro e na cena. A exposição na cena. Estar em frente ao público ou camuflado entre este. Um espaço subterrâneo. O som periférico que vem de fora da cena. A vida que continua lá fora, para além da cena. O arquivo que inunda o espaço. Sacos de plástico azul. Caixotes. O ato de ocultar e o ato de revelar. De ser olhado e de olhar. O lugar do observado e do observador. Fragmentos de vidas, histórias e acontecimentos resgatados ou inventados. A metamorfose. Os corpos que estão dentro das caixas e dos arquivos. Nomes. Listas. Letras. Datas. O que sobra depois da morte. Objetos que já ninguém quer. Ter de esvaziar uma casa de alguém que morre. O lixo humano. O que fazer com ele? A literatura periférica. Os diários e as cartas.  A periferia como um estado. 
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